A raiva é transformadora

No dia que nossos parlamentares aprovaram o aumento de seus salários de R$ 16 mil para R$ 26,7 mil reais, fui profundamente impactado por uma situação ao ir para o trabalho.

Uma usuária de crack, que assola o belo centro de São Paulo, abaixa suas calças e começa a defecar no meio fio. Passou tanta coisa em minha cabeça, mas o que mais predominou foram as perguntas: “Cadê a dignidade dessa pessoa? Cadê o respeito por essa pessoa? Como foi que isso tudo aconteceu? Essa miséria… Como foi que deixamos chegar nisso?”.

Ela é uma vítima de um sistema corrompido, falho, indiferente, do muito para poucos, de um apartheid, de um abismo social que só aumenta. O Estado tem como missão organizar a sociedade e prover qualidade de vida para seus cidadãos. Porém, os representantes que lá colocamos não cumprem seus deveres. Mas, tudo bem, porque não só não fiscalizamos, como também não os punimos nas urnas.

O artigo 5o da Constituição Federal trata de direitos e deveres. Um dos itens diz que ninguém deverá ser submetido a um tratamento desumano ou degradante. Todos têm direito à vida. O que tenho visto é vida?

Um aumento de salário, como esse aprovado pelo Congresso, devereria ser inconstitucional, dada a situação do país. Mais da metade do Brasil não tem esgoto. Mais de 30 milhões de famílias vivem com até R$ 1,3 mil todo mês.

Enquanto eu estiver vivo, quero poder me indignar, ficar puto e ter raiva. Por, basicamente, dois motivos. (1) a raiva é transformadora e é o que precisamos agora, transformar e (2) a justiça, definitivamente, não é cega. Nós é que somos.

A evolução dos degraus de responsabilidade social

Quando se fala em responsabilidade social corporativa, geralmente se tem em mente aquele relatorio de sustentabilidade emitido pelas empresas no fim do ano com ações realizadas durante o período que vão desde doações, campanha do agasalho, ações da Fundação / Instituto, etc, etc.

No início, as ações sociais das empresas ficavam restritas às áreas de marketing ou recursos humanos. Com o tempo e alta demanda, resolveu-se, então, criar uma área para isso, seja relações com a comunidade, responsabilidade social corporativa, bla, bla.

Desenvolver uma área específica para cuidar de responsabilidade social cria a ilusão de foco, quando na verdade está apenas criando ações com a falsa percepção de neutralização do negócio em questão. É um trabalho que não chega nem perto do core-business da empresa e, portanto, tem valor extremamente baixo, apesar de já ser um enorme passo.

Nos degraus de responsabilidade social corporativa de Ferrell, Fraedrich, Ferrel, eles já foram um pouco mais adiante. Um empresa que realmente tem responsabilidade social, tem que subir ao menos quatro degraus:

1. Legal – Cumprir todas as leis e regulamentos do governo, ou seja, pagar impostos, registrar devidamente seus funcionários;

2. Ético – Seguir padrões de conduta aceitável, definida pelos stakeholders;

3. Econômico – Maximizar para os stakeholders a riqueza e/ou valor;

4. Filantropia – Aqui, um conceito da filantropia mais americanizada, restituindo à sociedade o que dela foi tirado ou recebido.

Note, portanto, que ser sócio responsável vai além de fazer uma campanha do agasalho.

A evolução que vejo nesse caminho é o retorno da responsabilidade social corporativa às áreas bases e estratégicas das empresas.

Com isso, os negócios terão no DNA a questão social e poderão posicionar a empresa no tripé de sustentabilidade de forma sólida e consistente, sem demagogia, sem hipocrisia, sem a falsa percepção de neutralização ou sustentabilidade. Ser social estará na enraizado na operação do negócio e gerará uma cadeia de valor dos fornecedores, clientes/consumidores e todos os stakeholders.

O bonus social do capitalismo

Em 1975, em Albuquerque, Novo México, nascia uma das maiores corporações da história do capitalismo. Pouco inovadora, mas com uma visão estratégica, a Microsoft sempre se destacou através de seu fundador pelo modo agressivo e arrojado de negociar, com o interesse econômico-financeiro sempre como o principal indicador de sucesso.

Símbolo e referência do capitalismo norte-americano, Bill Gates liderou por muitos anos o ranking da Forbes de homens mais ricos do mundo. Foi o primeiro homem a ultrapassar a marca de uma fortuna de US$ 100 bilhões. Sua corporação chegou a ter um valor de mercado de mais de US$ 700 bilhões. Na época, era superior ao PIB do Brasil.

Em janeiro de 2008, durante seu keynote na Consumer Electronics Show, Gates anunciou que se aposentaria em junho daquele ano e deixaria suas funções diárias da Microsoft. Preparou um sucessor e começou a se dedicar full-time em sua fundação Bill & Melinda Gates a partir de então.

De feroz capitalista, Bill Gates, que já havia esboçado e experimentado ações humanitárias em meados da década de 90, vem se mostrando um empreendedor social e um agente de transformação e mudança ao redor do globo.

Ao receber o cheque de US$ 40 bilhões do outro gênio do capitalismo moderno Warren Buffett, adicionando a fortuna da família Gates, a Fundação Bill & Melinda Gates é a maior ’empresa social’ do mundo. Com um ativo de mais de US$ 100 bilhões aplicados, a organização patrocina e desenvolve programas sociais em regiões ultra-carentes.

Não acredito que os fins justificam os meios, porém, de modo prático, o imperialista, desrespeitador das leis antitrustes, o oportunista, capitalista desenfreado, como é conhecido Gates, mostra ao mundo o real valor do dinheiro e de como pode e deve ser aplicado, ao contrário dos executivos que levaram bonus milionários de instituições salvas pelo dinheiro de contribuintes na crise de 2008.

Com a tagline “Todas as vidas têm o mesmo valor”, sua Fundação investe mais de US$ 10 bilhões na criação, armazenamento e deslocamento de vacinas. Além disso, desenvolve programas globais de combate à fome crônica, que atinge mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, e desenvolvimento social para base da pirâmide.

As próximas décadas podem ser a nossa outra chance de reverter esse quadro de caos social e climático que vivemos. Temos o privilégio de ter o bonus social que o capitalismo selvagem do século XX nos deixou de legado. Um deles é Bill Gates e sua fundação.

Referências:
The Gates Notes
Bill & Melinda Gates Foundation

Economia de gotejamento e Empreendedores Sociais

Estimativas da Abong – Associação Brasileira de ONGS contabilizam aproximadamente 500 mil Instituições sem fins lucrativos no país.

Vamos assumir que apenas 10% façam um trabalho com seriedade e não sejam utilizadas como fachadas para contravenção.

Estamos falando de 50 mil ONGs no país atuando em diferentes causas e iniciativas. O primeiro desafio que se vem à cabeça é como sustentar uma estrutura, seja qual for a finalidade e tempo de dedicação.

Começa então a famosa disputa por ‘pobre’. O complexo da maré, no Rio de Janeiro, tem um total de 140 mil pessoas. Em São Paulo, a Heliopolis tem 100 mil pessoas. São exemplos de comunidades de baixa renda com alta desnidade demografica e fontes ‘ricas’ de infinitos projetos sociais.

Depois de disputar a agenda, atenção e disponibilidade do público, agora é a vez do bolso dos patrocinadores. Em um país em que a cultura de doação é bastante limitada, a captação fica restrita a programas de responsabilidade sociais corporativos ou de origem do governo.

Yunus destaca (Creating a World Without Poverty, 2008) que a caridade é uma forma de trickle down economy ou economia de gotejamento, em que, se ela cessa, a ajuda aos necessitados também é interrompida.

De acordo como IPEA, O Brasil tem 19 milhões de microempreendedores, ou seja, 10% da população. Antes que alguém diga que são empreendedores por necessidade, estima-se que 60% desse número são por vocação.

Portanto, são importantes lideranças comunitárias que podem atuar viabilizando negócios sociais com iniciativas espontâneas e sustentáveis.

Uma saída para o desafio de captação das organizações sem fins lucrativos ou sociais é que devemos estimular esses microempreendedores comunitários através de capacitação em gestão e financiamento acessível (no sentido mais puro da palavra – ter um credito aprovado em 2h, porém, com um juros de 5% ao mês está longe de ser acessivel).

Um primeiro desafio para negócio social

Um rápido pensamento após ter lido a incrível experiência da Real Microcrédito: o agente de crédito é, sem dúvida, o principal elo entre a instituição e os clientes na base da pirâmide.

Temos este desafio imenso também na empresa social CDI Lan, que deve contar com agentes de vendas percorrendo comunidades de baixa renda para atender os microempreendedores comunitários proprietários de Lan Houses membros do CDI.

Precisamos obter mais detalhes do perfil desse agente e de como iremos capacitá-lo e treiná-lo para ser o nosso elo nas comunidades atendidas.

Já temos as atribuições desse agente. Porém, em um negócio com alta capilaridade e escala de proporções enormes, vemos o perfil versus capacitação e acompanhmento como um dos primeiros desafios para esta empresa social.

Mais informações em breve.

Os negócios sociais no contexto atual

O mundo tem destacado constantemente a crescente importância do Brasil na conjuntura internacional nos últimos anos. O bem sucedido plano Real de estabilização econômica, as poucas reformas realizadas, a diversidade e quantidade de recursos naturais, a topografia, a dimensão continental, o jeito brasileiro – flexível de ser, a globalização das corporações locais como Petrobrás, Vale, AmBev, Embraer, etc, entre muitos outros itens, tiram o país do papel de coadjuvante e atribuem o papel de ator principal, junto aos países emergentes, na retomada do crescimento global, após a grave crise sistêmica de 2008.

Se por um lado, a nova ordem mundial parece reconhecer o Brasil como uma potência mundial, por outro lado a falta de reformas tributária, política e sociais assombra os países do BRIC e colocam o cheque a capacidade de fortalecimento da base e sustentação do crescimento.

Segundo o Goldman Sachs, criador do acrônimo BRIC – Brasil, Russia, Índia e China, em um estudo mais recente e revisto após o agravamento da crise, o Brasil será a quarta economia do mundo, atrás de China, Estados Unidos e Índia, respectivamente, até 2050 com um PIB – Produto Interno Bruto de 11 trilhões de dólares, um crescimento acumulado de mais de 600% em 40 anos. Contudo, o que o país e as corporações, que é o agente mais interessado nisso tudo – estão fazendo para isso se tornar realidade?

De fato, muito pouco. Nessa década (2000-2009), o termo sustentabilidade invadiu as empresas mundo afora, inclusive no Brasil. Mas o que é ser sustentável? Seria a Souza Cruz uma empresa sustentável? Em tese sim. Afinal de contas investe milhões em programas sociais para neutralização de suas ações. Sim, mas as milhões de vidas prejudicadas por um negócio baseado no vício e que causa rombo de bilhões nos cofres públicos? Ué, põe na conta do Governo. Justo não?

Ironia a parte, por um lado, a responsabilidade social corporativa hoje é usada como meio de neutralizar os danos causados ao meio ambiente e sociedade pela realização da atividade econômica proposta, podendo ser a doação de cestas básicas na comunidade em que a fábrica bélica se estabelece até Fundações e Institutos com projetos milionários financiados por bancos, mineradoras, construtoras, etc.

De outro lado, as 500 mil organizações sociais civis (não governamentais), as chamadas ONGs, tem como core-business as questões sociais e ambientais, mas tem como lado crítico a sustentabilidade financeira e, na maioria dos casos, a gestão pouca profissional de projetos e organização.

Já os negócios sociais têm como principal característica essas questões tratadas acima no DNA da empresa. Está no core-business da organização ser social, ambiental e lucrativa, conceito conhecido como pilares da sustentabilidade ou Triple Bottom Line tratado por John Elkington (Cannibals with Forks: the Triple Bottom Line of 21st Century Business, 1998).

Quando as questões sociais e/ou ambientais estão envolvidas diretamente no negócio da empresa, gera-se uma cadeia de valor em escala e sustentável que tem, sim, o lucro como um dos fins, mas impactando e transformando vidas. Talvez o exemplo mais conhecido de um negócio social seja o Nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus e seu Grameen Bank. Mas, de modo mais prático, que tal olharmos Escolas e Hospitais também como negócios sociais?

Outro exemplo que no Comitê para Democratização da Informática (CDI) estamos trabalhando fortemente são as Lan Houses. Atualmente no Brasil, apenas 64 milhões de pessoas têm acesso à Internet. Desse total, 30 milhões acessam via centros públicos de acesso pago – nome técnico criado pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) para as LANs.

Dos 30 milhões que acessam via Lan Houses, 24 milhões são das classes C, D e E. Ou seja, é um negócio de impacto social grande. Agora, analisando sob um ponto de vista de e-gov, a partir do momento que o Governo Federal exige que o único meio de declaração e transmissão do imposto de renda seja feito via Internet e não fornece à população condições e estrutura para tal, o Estado está ratificando, além da exclusão digital, a exclusão social.

Desse modo, creditamos às Lan Houses não só como o principal canal de acesso à Internet pelas comunidades de baixa renda e classes C, D e E, mas também importantes negócios sociais liderados por micro-empreendores comunitários que, na maioria dos casos, são referências nas regiões atendidas.

Para concluir, os negócios sociais são e serão importantes instrumentos para sustentar e transformar vidas ao redor do globo, preservando o que é da natureza e com um impacto social em escala.

Para críticas e sugestões: twitter.com/mfukayama ; e-mail: mfukayama@gmail.com

A Vida é Digital

As constantes inovações trazem diversos benefícios ao dia-a-dia das pessoas. Nas últimas décadas, a tecnologia impactou de forma sensível na vida de cada um. Mudou, reinventou, recriou o conceito de produtos, serviços e formas de viver das pessoas.

Vida Digital é mais que um conceito. Pode-se considerar uma arte de aliar a tecnologia ao cotidiano, desde o estudante com seu quadro interativo na escola; os enfermeiros com prontuários eletrônicos nos PDAs – assistente pessoal digital; toda a sua casa controlada por apenas um controle remoto; estar conectado constantemente; até os diversos serviços disponíveis para o cidadão por meio do governo eletrônico.

A tecnologia é hoje o que a energia elétrica foi para a Era Industrial e estará tão enraizada nos processos do dia-a-dia que não tornará a se pensar em um mundo sem tais avanços. Convergência, interatividade, entretenimento, longevidade, agilidade e facilidade, são algumas palavras sinônimas de vida digital.