A raiva é transformadora

No dia que nossos parlamentares aprovaram o aumento de seus salários de R$ 16 mil para R$ 26,7 mil reais, fui profundamente impactado por uma situação ao ir para o trabalho.

Uma usuária de crack, que assola o belo centro de São Paulo, abaixa suas calças e começa a defecar no meio fio. Passou tanta coisa em minha cabeça, mas o que mais predominou foram as perguntas: “Cadê a dignidade dessa pessoa? Cadê o respeito por essa pessoa? Como foi que isso tudo aconteceu? Essa miséria… Como foi que deixamos chegar nisso?”.

Ela é uma vítima de um sistema corrompido, falho, indiferente, do muito para poucos, de um apartheid, de um abismo social que só aumenta. O Estado tem como missão organizar a sociedade e prover qualidade de vida para seus cidadãos. Porém, os representantes que lá colocamos não cumprem seus deveres. Mas, tudo bem, porque não só não fiscalizamos, como também não os punimos nas urnas.

O artigo 5o da Constituição Federal trata de direitos e deveres. Um dos itens diz que ninguém deverá ser submetido a um tratamento desumano ou degradante. Todos têm direito à vida. O que tenho visto é vida?

Um aumento de salário, como esse aprovado pelo Congresso, devereria ser inconstitucional, dada a situação do país. Mais da metade do Brasil não tem esgoto. Mais de 30 milhões de famílias vivem com até R$ 1,3 mil todo mês.

Enquanto eu estiver vivo, quero poder me indignar, ficar puto e ter raiva. Por, basicamente, dois motivos. (1) a raiva é transformadora e é o que precisamos agora, transformar e (2) a justiça, definitivamente, não é cega. Nós é que somos.

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