A raiva é transformadora

No dia que nossos parlamentares aprovaram o aumento de seus salários de R$ 16 mil para R$ 26,7 mil reais, fui profundamente impactado por uma situação ao ir para o trabalho.

Uma usuária de crack, que assola o belo centro de São Paulo, abaixa suas calças e começa a defecar no meio fio. Passou tanta coisa em minha cabeça, mas o que mais predominou foram as perguntas: “Cadê a dignidade dessa pessoa? Cadê o respeito por essa pessoa? Como foi que isso tudo aconteceu? Essa miséria… Como foi que deixamos chegar nisso?”.

Ela é uma vítima de um sistema corrompido, falho, indiferente, do muito para poucos, de um apartheid, de um abismo social que só aumenta. O Estado tem como missão organizar a sociedade e prover qualidade de vida para seus cidadãos. Porém, os representantes que lá colocamos não cumprem seus deveres. Mas, tudo bem, porque não só não fiscalizamos, como também não os punimos nas urnas.

O artigo 5o da Constituição Federal trata de direitos e deveres. Um dos itens diz que ninguém deverá ser submetido a um tratamento desumano ou degradante. Todos têm direito à vida. O que tenho visto é vida?

Um aumento de salário, como esse aprovado pelo Congresso, devereria ser inconstitucional, dada a situação do país. Mais da metade do Brasil não tem esgoto. Mais de 30 milhões de famílias vivem com até R$ 1,3 mil todo mês.

Enquanto eu estiver vivo, quero poder me indignar, ficar puto e ter raiva. Por, basicamente, dois motivos. (1) a raiva é transformadora e é o que precisamos agora, transformar e (2) a justiça, definitivamente, não é cega. Nós é que somos.

Os negócios sociais no contexto atual

O mundo tem destacado constantemente a crescente importância do Brasil na conjuntura internacional nos últimos anos. O bem sucedido plano Real de estabilização econômica, as poucas reformas realizadas, a diversidade e quantidade de recursos naturais, a topografia, a dimensão continental, o jeito brasileiro – flexível de ser, a globalização das corporações locais como Petrobrás, Vale, AmBev, Embraer, etc, entre muitos outros itens, tiram o país do papel de coadjuvante e atribuem o papel de ator principal, junto aos países emergentes, na retomada do crescimento global, após a grave crise sistêmica de 2008.

Se por um lado, a nova ordem mundial parece reconhecer o Brasil como uma potência mundial, por outro lado a falta de reformas tributária, política e sociais assombra os países do BRIC e colocam o cheque a capacidade de fortalecimento da base e sustentação do crescimento.

Segundo o Goldman Sachs, criador do acrônimo BRIC – Brasil, Russia, Índia e China, em um estudo mais recente e revisto após o agravamento da crise, o Brasil será a quarta economia do mundo, atrás de China, Estados Unidos e Índia, respectivamente, até 2050 com um PIB – Produto Interno Bruto de 11 trilhões de dólares, um crescimento acumulado de mais de 600% em 40 anos. Contudo, o que o país e as corporações, que é o agente mais interessado nisso tudo – estão fazendo para isso se tornar realidade?

De fato, muito pouco. Nessa década (2000-2009), o termo sustentabilidade invadiu as empresas mundo afora, inclusive no Brasil. Mas o que é ser sustentável? Seria a Souza Cruz uma empresa sustentável? Em tese sim. Afinal de contas investe milhões em programas sociais para neutralização de suas ações. Sim, mas as milhões de vidas prejudicadas por um negócio baseado no vício e que causa rombo de bilhões nos cofres públicos? Ué, põe na conta do Governo. Justo não?

Ironia a parte, por um lado, a responsabilidade social corporativa hoje é usada como meio de neutralizar os danos causados ao meio ambiente e sociedade pela realização da atividade econômica proposta, podendo ser a doação de cestas básicas na comunidade em que a fábrica bélica se estabelece até Fundações e Institutos com projetos milionários financiados por bancos, mineradoras, construtoras, etc.

De outro lado, as 500 mil organizações sociais civis (não governamentais), as chamadas ONGs, tem como core-business as questões sociais e ambientais, mas tem como lado crítico a sustentabilidade financeira e, na maioria dos casos, a gestão pouca profissional de projetos e organização.

Já os negócios sociais têm como principal característica essas questões tratadas acima no DNA da empresa. Está no core-business da organização ser social, ambiental e lucrativa, conceito conhecido como pilares da sustentabilidade ou Triple Bottom Line tratado por John Elkington (Cannibals with Forks: the Triple Bottom Line of 21st Century Business, 1998).

Quando as questões sociais e/ou ambientais estão envolvidas diretamente no negócio da empresa, gera-se uma cadeia de valor em escala e sustentável que tem, sim, o lucro como um dos fins, mas impactando e transformando vidas. Talvez o exemplo mais conhecido de um negócio social seja o Nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus e seu Grameen Bank. Mas, de modo mais prático, que tal olharmos Escolas e Hospitais também como negócios sociais?

Outro exemplo que no Comitê para Democratização da Informática (CDI) estamos trabalhando fortemente são as Lan Houses. Atualmente no Brasil, apenas 64 milhões de pessoas têm acesso à Internet. Desse total, 30 milhões acessam via centros públicos de acesso pago – nome técnico criado pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) para as LANs.

Dos 30 milhões que acessam via Lan Houses, 24 milhões são das classes C, D e E. Ou seja, é um negócio de impacto social grande. Agora, analisando sob um ponto de vista de e-gov, a partir do momento que o Governo Federal exige que o único meio de declaração e transmissão do imposto de renda seja feito via Internet e não fornece à população condições e estrutura para tal, o Estado está ratificando, além da exclusão digital, a exclusão social.

Desse modo, creditamos às Lan Houses não só como o principal canal de acesso à Internet pelas comunidades de baixa renda e classes C, D e E, mas também importantes negócios sociais liderados por micro-empreendores comunitários que, na maioria dos casos, são referências nas regiões atendidas.

Para concluir, os negócios sociais são e serão importantes instrumentos para sustentar e transformar vidas ao redor do globo, preservando o que é da natureza e com um impacto social em escala.

Para críticas e sugestões: twitter.com/mfukayama ; e-mail: mfukayama@gmail.com

Neuromarketing e George W. Bush

O ano é 2004. Os candidatos à presidência dos EUA são o democrata John Kerry e, pela reeleição, o republicano George Walker Bush. Eleitores foram entrevistados sobre em quem votariam no dia 02 de novembro.

Antes de expressarem suas intenções de voto, foram expostos a dois materiais: O primeiro, um comercial do ex-presidente republicano Lyndon Johson, que chocou os EUA ao colocar uma criança – Daisy, no ágio da Gerra Fria, contando flores em um jardim e, de repente, uma explosão nuclear a varreria do mapa. O segundo material foram algumas fotos e vídeos sobre os ataques de 11 de setembro, ainda fresco na memória dos entrevistados.

O resultado é óbvio, como as próprias urnas mostraram. Bush foi reeleito e com larga vantagem. Mas como? Por que? Será que é só pelo conservadorismo republicano?

Máquinas de ressonância e encefalogramas mostraram que uma quantidade considerável de sangue foi concentrada na região da amygdala, que fica no lóbulo temporal e é responsável por controlar sensações de ansiedade e medo, trabalhando em conjunto com a memória.

Nobre leitor, neuromarketing é (quase) tudo!